Com as duas mãos trêmulas ela tampava sua boca. Seus olhos encharcados de lágrimas não podiam mostrar todo o terror que estava passando por seu corpo, mas se observando com mais atenção poderia ver o medo tomando forma em sua íris. Estava no escuro, com as costas contra a porta, tentando respirar enquanto os soluços do choro eram abafados. A falsa segurança de estrar trancada num pequeno closet lhe dava esperança de sair daquela casa viva. Mas as imagens não sumiam da sua cabeça.
Quanto mais tempo passava, o silêncio do lado de fora a confortava. Era como se todo aquele caos anterior tivesse passado e finalmente estava distante daquela realidade triste que vivenciara. Quando finalmente conseguiu ceder um pouco ao cansaço, seu corpo escorregou pela porta. Agachada e com sono, olhava para suas vestes manchada de sangue e prendia o choro. Já havia perdido noção de quantas horas estava chorando, mas a dor de cabeça já estava ali há bastante tempo.
Esticava sua camiseta procurando mais manchas vermelhas quando o barulho arrepiou toda sua espinha. Levou novamente as mãos à boca, mandando todo o seu sono para outra dimensão. Novamente estava sendo controlada por seu desespero, não havia lugar para outros sentimentos a não ser os que a pudessem mantê-la viva. O som em questão era estridente, como passar uma faca contra uma superfície de aço. Automaticamente a imagem que lembrava era do homem arrastando seu imenso machado contra o chão voltou a assombrá-la. Aquele som antecedeu vários gritos naquela noite. Gritos que foram ceifados e silenciados pela morte subsequente.
Ela ouviu uma voz chamar por seu nome, depois foram vários sons que não soube diferenciar se era realmente do seu amigo Paulo. Não era um grito de dor, era um grito como quem chamava o perigo a procurá-lo. Talvez ele soubesse que sua amiga ainda estava escondida, mas ela não viveria muito se tivesse que ficar assim por muito tempo. Mais cedo ou mais tarde o inimigo a encontraria. O barulho arrepiante do aço cortando cessou com a provocação do outro; passos fortes descendo a escada puderam ser ouvidos. Enfim respirou aliviada. Paulo conseguira chamar a atenção para fora daquele andar. Talvez fosse o momento certo para usar a deixa e fugir.
Alguns minutos de total silêncio, criou a coragem necessária para abrir a porta do closet. Fez mais barulho do que imaginava e ecoou por todo o seu corpo. Saiu em passos lentos, apoiando na parede, até a escadaria. Não via ninguém além dos diversos corpos ensaguentados no chão. Aquela imagem não lhe causou choro, talvez sua coragem momentânea a cegou pelas emoções anteriores. Mas ao descer lentamente os degraus, ela sentia o cheiro forte dos mortos. Aquilo embrulhava o estômago de qualquer pessoa, mesmo que embargada de coragem. Evitava olhar: dilacerações profundas, alguns membros decapitados. As pessoas que há algumas horas ela conversava agora estavam todas irreconhecíveis. Desconfiguradas.
Ao pé da escada, olhou para todas as direções, apoiando seu corpo contra o corrimão. Era a falsa segurança que ela precisava. O silêncio total começava a perturbar. Deu os primeiros passos, parecia tudo fácil demais. Ela ia conseguir se safar. Estava de frente para a porta principal ...
Quando a abriu, o ranger da porta parecia andar por todas suas veias. No meio da escuridão, havia um corpo caído e outro, mais a frente, ofegante, apoiando os braços em um machado ensanguentado fincado ao chão. É claro, ela já estava novamente chorando, paralisada pelo medo. Qualquer coragem que existira se esvaiu como o vento.
- Está tudo bem... fique tranquila. - A voz era irreconhecível, mas conforme o corpo se aproximava, ela lembrava daquelas roupas.
- Paulo?! - Questionou, atônita. - Meu Deus, Paulo! Você conseguiu matá-lo?
- Sim...
E com passos lentos, ele veio em sua direção. Mancava, parecia que a qualquer momento ia desmoronar. Ainda estava muito escuro, não dava para perceber qualquer detalhe. A luz da lua a deixava reconhecer algumas manchas de sangue cobrindo os detalhes na roupa do homem que a fazia lembrar de quão limpa era no começo daquela noite. Conforme ele se aproximava, seu corpo era mais convidativo do que nunca; eles precisavam de carinho humano depois de tudo que passaram naquela noite. Ela se entregou, colocou sua cabeça contra o seu peito e esperou ser reconfortada pelos braços de seu amigo. Mas, então, conforme chorava, sentia também as lágrimas dele caindo sobre seu rosto. Quando deu por si, não eram lágrimas, e sim sangue. O rosto dele pingava.
A mulher se desvincilhou dos braços de Paulo e olhou mais de perto. A roupa era a mesma. Mas seu rosto... havia algo de errado. Ela o tocou, sua mão parecia ter sido mergulhada em um rio. Seu corpo automaticamente recuou, trazendo a mão até uma parte que seus olhos pudessem captar detalhes: era puro sangue, mas havia algo a mais... havia... pele.
Recuou rapidamente em passos longos, tentando processar a informação na palma da sua mão. Voltava para a porta principal que acabara de sair, onde antes sentira alívio agora era tomado por tormento. A casa que era seu pior pesadelo parecia que, naquele momento, lhe traria segurança. Paulo também caminhava para dentro da casa, com um sorriso no rosto que a cada segundo parecia mais desfigurado. Aos poucos, seu rosto começou a desmoronar. O sangue que escorria puxava junto de si parte da pele, os seus detalhes sumiam. Ana gritou ao finalmente entender o que acontecia.
O assassino estava trajando as roupas de Paulo. E também sua pele.
