Quem iria imaginar que Jonas finalmente conseguiu ficar junto com Paloma? Quem o conhecia sempre debochava desse amor platônico. Jonas era um garoto estranho na época do colegial, por isso Paloma nunca sequer o olhou. Quando digo estranho, não é só no sentido da aparência. Ele não ria de piadas, não as sabia contar, e sempre que chegava num círculo de amigos a pequena aglomeração se desmanchava mais rápido do que água separando do óleo. Mas ele sempre mantinha suas declarações de amor explicitas para quem quisesse ver. Era nítido que, como costumava dizer, ela era sua alma-gêmea (mesmo que o ignorasse por todo aquele tempo).
Jonas estava no mercado, com um sorriso de orelha a orelha, comprando tudo o que achava que era necessário para a noite perfeita: flores, incensos, frutas, chocolate... pensava em pratos exóticos que cozinharia para a amada naquela noite. Afinal, precisava comemorar! Era um mês de namoro e para ele: a maior conquista de sua vida. Enquanto o carrinho ia enchendo de mercadoria, Jonas pensava no pós-jantar: não via a hora de expor em uma foto bonita em sua rede social para todos seus seguidores que estava comemorando um mês de namoro com a Paloma. Calar a boca das pessoas que duvidavam dele parecia ser uma das partes mais prazerosas daquela noite que viria a acontecer.
Antes de ir diretamente para casa, lembrou do brilho verde da esmeralda que sempre cobiçara. O anel perfeito para sua amada com o verde intenso como o olhar de Paloma. A vendedora já o conhecia, aquela loja sempre fizera parte de seu sonho, a frequentava sozinho para quando o momento acontecesse ele já tivesse algo em mente.
- Veio dar uma olhada no de sempre, senhor Jonas?
- Não, dona Patrícia, hoje eu vim levá-lo! - E seu peito enchia de orgulho de proferir aquelas palavras que pareciam precisamente calculadas desde o momento que viu o reluzir verde pela primeira vez.
Era uma fortuna! O que levou anos para juntar desapareceu ao ler que a transação fora aprovada. Mas valeria a pena. Já sentia as borboletas no estomago, a ansiedade de vê-la receber um presente daqueles parecia consumi-lo. Vê-la feliz consecutivamente o faria também. Era o que reforçava para si mesmo.
Já em casa, começou a preparar o jantar. Seu celular tocava no volume máximo uma playlist que a Paloma havia feito. Cantava e em meio a passos rápidos de dança, Jonas dava seu toque especial na comida: o amor. Era tanta variedade de receita que para apenas os dois era exagero: preparou o prato favorito de sua namorada: berinjela defumada. Para acompanhar ele exagerou na carne recheada com manjericão. O cheiro do peixe com batata também já circulava por toda a casa. Até mesmo a vizinhança podia sentir na água que enchia em suas bocas o gosto daquele cheiro indescritível do estrogonofe de camarão. Era muita comida! Todas as luzes da casa acesas, a música alta... tudo começava a chamar a atenção. Felicidade demais incomoda?
Tudo servido, os dois na mesa. Jonas não conseguia conter sua felicidade. Antes mesmo de jantarem ele retirou do bolso a caixinha de veludo que portava sua joia cara. Ajoelhou-se e entregou para Paloma, que estava completamente inerte.
- Não, não diga nada! - Ele disse entre sorrisos. - Você merece o mundo! - E, com carinho e delicadeza, colocou o anel na mão do seu amor. Fizera exatamente como via nos filmes: beijou as costas da mão antes de subir lentamente para a boca. O casal de pombinhos mais improvável da cidade inteira comemorava um mês de namoro!
Quem visse de fora, acharia a cena estranha. Há quem usasse a palavra perturbador para a cena.
Como Jonas, depois de todos esses anos conseguira um jantar com Paloma? E como, se é que era realmente possível, os dois estavam namorando? Bom, nem os amigos de Paloma sabiam dessa novidade. Parecia um segredo dos dois, como um pacto. Mas Jonas queria que todos soubessem e estava pronto para postar sua primeira foto ao lado da amada. Seu feed era só fotos dela, ele sempre repostava os posts de Paloma. Mas agora eles teriam sua primeira foto juntos. A famosa hora de
Assim que publicado, os comentários começaram a bombardeá-lo. Ninguém estava entendendo nada. Ele ria, e lia em voz alta alguns absurdos para Paloma:
- Não... olha amor, - riu apontando a tela do celular - olha o que o Pedro comentou! É pura inveja, né? Ele sempre quis te tirar de mim. "Você é louco"... quem ele acha que é? Olha essa sua amiga... você precisa contar para elas, Paloma. Estão começando a ficar paranoicas.
E riram. Mas só a risada dele ecoou pela casa.
Jonas curtiu o próprio comentário lhe dando parabéns pelo namoro.
Ainda analisava os comentários, respondia alguns com xingamentos, quando as autoridades invadiram sua casa. O algemaram enquanto continuava gritando por Paloma que nada dizia. Aquele monte de comida. O cheiro para quem entrava na casa era enjoativo, embrulhava o estomago. Alguns dos policias tampavam suas narinas com parte do uniforme que trajavam. O típico aroma do camarão e o cheiro forte putrificado do corpo de Paloma misturava no ar.
Aquela noite nunca mais seria esquecida. O "doido do Jonas" estava cuidando de um cadáver há um mês. Ninguém sequer havia notado que o túmulo fora violado. Agora que iriam enterrar novamente o corpo, talvez Paloma pudesse finalmente descansar em paz.
As fotos publicadas logo foram deletadas da rede social por violação dos termos de uso. Ao acessar o perfil de Jonas você recebia um aviso de que as fotos foram removidas por conter conteúdo explícito de necrofilia.
