quinta-feira, 16 de julho de 2020

O incêndio da lebre



Do meio da folhagem densa, ela saiu lentamente preocupada com os espinhos. Era a primeira vez que criava coragem para sair daquela zona que considerava ser segura. Passou dias analisando todas as possibilidades para se aproximar, mas por mais que sua cabeça trabalhasse rápido, algumas coisas sempre passam despercebido.

Com passos lentos, ela subia o morro íngreme tocando a relva molhada com as mãos. Vez ou outra verificava o peso em suas costas, como se precisasse tocá-lo para sentir sua presença. Seu ouvido captou um estalo, logo atrás pelo caminho que já havia passado. O frio em sua espinha quase a impediu de agir, mas ela foi rápida e sacou a besta das costas, girou no gramado e apontou sua arma para uma lebre que a observava. Ela soltou um sonoro sorriso de alívio. Levou a mão ao peito, como se segurasse fisicamente sua respiração. Girou novamente na grama e voltou a subir o morro. A canção que todo dia ela ouvia na moita segura parecia cada vez mais alta, entretanto incompreensível.

A lebre, ainda parada, acompanhando a mulher que escalava sem perceber o perigo. E mais uma vez ela era enganada por seus instintos: achava estar segura, mas desde sempre estava sendo observada. O animal então começou a tremer, sem estar sendo visto, começou a expandir em tamanho. Logo havia uma outra mulher de pé atrás da que escalava. Trajava preto, um véu tampava seu rosto e ela apenas movimentou a mão para que tudo acontecesse.

A caçadora finalmente notou o que acontecia: ela fora pega. Aos poucos, sem olhar para trás pois seu corpo parecia paralisado pelo medo, ela sentia o calor arder contra sua pele. A grama, mesmo molhada, estava em chamas. E ela finalmente conseguiu ver o fogo quando ele se fechou em um ciclo a prendendo ali dentro.

- Finalmente saiu para brincar, jovem? - A voz por debaixo do véu parecia tremer a terra.

A caçadora engoliu a seco. Ela notou que não tinha mais escapatória e voltou a sacar sua besta. E sem pensar muito, ergueu-se de coragem e olhou para a mulher de pé em sua frente, atrás da parede fogo. Franziu o cenho como ênfase ao pensamento que lhe passava na cabeça. E disparou. A flecha parou poucos centímetros antes de atingir o alvo.

- Não... n-não pode ser...

A flecha desintegrou diante do vento.

Da árvore ao lado, da sombra no tronco, uma outra silhueta de uma pessoa se formava. Ela aproximava lentamente. A caçadora teve a impressão que a nova integrante daquela noite tinha saído de dentro da árvore, o que a deixou mais confusa e com medo. Por todo lugar que ela olhava, onde o fogo tremeluzia, ela via uma nova pessoa que não tinha notado antes. Pôde contar 9 corpos em volta daquele ciclo de fogo que não diminuía ou sequer avançava pelo resto da grama. Ela percebeu que as pessoas estavam ali o tempo todo, mas só não conseguia vê-las antes.

- Desde seu primeiro dia nós a vimos. Deixamos nos ouvir. Sabíamos que um dia você teria a coragem necessária para querer nos atacar. Mas você é jovem e humana, portanto: tola. Nunca estivemos em perigo. Uma jovem armada de uma besta contra uma legião de bruxas... você realmente achou que sua flecha nos mataria?

- Era pra minha proteção. - Ela disse, com sua voz rouca e já influenciada pela fumaça das chamas.

- Você parece bem segura agora.

Todas as mulheres riram. Se aproximaram do ciclo em chamas. A caçadora ficou reclusa, com medo. Começou a gritar por socorro, mas uma das mulheres que se autointitulava bruxa atravessou pelo fogo com um sorriso tão enorme que era possível vê-lo por trás do véu. Esticou a mão e selou a boca da caçadora. Suas unhas começaram a cravar as bochechas da mulher que sentia suas lágrimas esfriarem seu rosto quente.

- Lembre-se de dizer a eles quando perguntarem: você sempre esteve louca.

E, em um segundo depois, cada uma das 9 mulheres entraram em suas sombras e sumiram. A que segurava a voz da caçadora começou a se transmutar e virou uma enorme serpente, que enrolou no pescoço da vítima antes de sair por ali se esgueirando pela grama.

- O que você está fazendo, menina? - A voz de um homem acordou a caçadora do choque que se encontrava. - Se prendeu em um círculo de fogo para ter nossa atenção?

- De novo com essa história de bruxa? - O outro perguntou, correndo com um balde de água para apagar as chamas que, agora, já se proliferava pelas árvores.

- Sai daí, sua doida! - Um dos homens daquela dezena de moradores do vilarejo a puxou contra si, a forçando a reaprender como andar. Ela chorava, com as mãos contra sua boca, como quem tentava entender o que aconteceu.

Os moradores se uniram e levaram toda aquela noite para controlar o incêndio que acharam que a caçadora que criara. Depois, é claro, ela foi obrigada a pedir desculpas pelo incidente e reafirmou para toda população que eles sempre tiveram razão: bruxas não existem. Quando ela falava essa palavra, sua bochecha com cicatrizes ardia.

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